sábado, 27 de junho de 2015

"Ligeira" (Denominação para andarilho típica do interior paulista)

Caminheira, viageira, "ligeira"
Sem eira nem beira
Porque a vida não pesa
É só companheira.
Sem saco nas costas
Nem bagagem de mão
Só pensamento e chão
Pensamento cavalo baio
Pisa firme no chão
No trote, no galope
Acompanha o coração
Só o verso é de "pé quebrado"
O cavalo não.
Tropeira com seu cavalo
Já bateu muito chão
Porque a vida companheira
Também é boa estradeira
Não tem medo de poeira
Só quer seguir fagueira
Até que não possa mais não.

Gratidão

Em algum momento Lispector disse: escrevo para não enlouquecer.
Por que escrevemos, pintamos, esculpimos? Para encontrarmos respostas a questões pessoais e incômodas. A arte não é asséptica. Obra e artista ( ou obreiro?) dialogam sempre. 
Escrevo por uma questão genética. Tive avôs anarquistas e feministas. Sem saber, até porque suas breves vidas não lhes deu tempo para ver, foram as portas por onde escapei de uma castração que me aguardava escondida atrás de cada "manual para moças". Fugi de uma herança indesejada.
Um avô artista, outro artesão. Um sente as dores da alma e convive com elas. Outro usa as dores do corpo e as transforma em poder. Ambos em mim. Escrevo para transformar a dor em voz.
Obrigada a ambos e a outros que depois deles não me estenderam tapetes mas acreditaram em meus pés e em meus olhos.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Declaração de amor

Vivemos a era dos genéricos, dos medicamentos, louvados por uns, questionados por outro. A partir dos medicamentos chegamos ao genérico das emoções. Parece que são, mas serão?
As redes sociais são o genérico das amizades. "Tenho centenas de amigos ! "  Como isso é possível? Procurem outra palavra no vernáculo porque amigo não é isso não.
Os histéricos fãs clubes transformam o amor em algo coletivo e indiscriminado. Genérico.
O sexo também não escapou da avalanche. Alguns estilos musicais, uns nacionais outros importados, assolam esta e outras terras. Sugerem, estimulam, provocam uma sexualidade generalizada, sem destino. Genérica.
Não encontro em nenhum dicionário definições para esses fenômenos, porque amizade, amor, sexo são outra coisa. Exigem pessoalidade, individualidade, discriminação.
A máxima desses movimentos bem poderia ser o verso de uma música que já tem alguns anos: " Sou de todo mundo e todo mundo é meu também"
Agora chegamos ao genérico dos genéricos: o politicamente correto e excessivamente divulgado " Amor à humanidade" . Isso me parece a história do Saci que nos contavam na infância. A gente fingia que acreditava. Não cheguei, nem chegarei a esse nível de abstração. Não consigo por no mesmo saco violentadores e abnegados. O máximo que consigo, em nome de minha verdade, é dizer que abomino uns, entendo muitos, admiro outros e amo mesmo só alguns.
Então quando faço minha declaração de amor ao mar, faço com a mesma discriminação.
Não amo o mar dos tsunamis, nem os que se movem sobre areias pedregosas, nem os aprisionados em gargantas estreitas. Amo o mar da baía de Santos com seu horizonte despudoradamente escancarado, que, por ser mar tem em si a possibilidade do rugir do tsunami, mas que optou pelo marulhar, pelo acariciar, pelo conversar.
Certa vez um amigo me disse que conversar é fazer versos junto.
Esse é o mar que amo pessoal e intransferivelmente.
O mar que provoca a poesia até em crianças. Nas palavras de minha neta quado pequenina para se referir à espuma das ondas: " Vovó, as ondas têm florzinhas na cabeça."

domingo, 21 de junho de 2015

MALABARISMOS



Equilibrar o sorriso até um segundo antes dele virar máscara

Andar no arame da dor até um segundo antes dela virar amargura.




DIREITOS AUTORAIS

Frases moralizantes que de tão repetidas quase viram verdades. Autores desconhecidos perdidos na POEIRA DOS TEMPOS, USADOS E ABUSADOS por quem queira. Não cobram direitos mas também não se responsabilizam pelo dito. E entre O DITO E O NÃO DITO é que MORA O PERIGO.
Uma delas, CONSTRUIR O FUTURO deve ser parente de QUERER É PODER! Esta última desde Freud tem perdido status, embora alguns ainda a defendam com UNHAS E DENTES.
Quanto á primeira que tal confrontá-la com algumas da mesma espécie? O FUTURO A DEUS PERTENCE ou ainda O HOMEM PÕE E DEUS DISPÕE. 
Escolha a que mais combina com você e aguente seu analista caso ele também tenha lá suas preferências. 
Quanto a mim, agora que meu futuro é bem mais curto do que no tempo em que acreditava em frases moralizantes e que adquiri uma certa humildade, só me arrogo o direito autoral do meu passado. Direito que cobra mais do que paga. A VIDA É UM SEGUNDO ou NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE NEM BEM QUE NUNCA SE ACABE? Só tome cuidado para não inverter a ordem dessa última.
Fico com o presente e caminho cuidadosamente tentando evitar os plágios, ser o mais verdadeira possível e percorrer sem pressa meu CAMINHO DAS PEDRAS. Ih!!!!

domingo, 31 de maio de 2015

Brincar de Casinha

Sou especialista. Venho me aperfeiçoando ao longo dos anos. Como boa brincadeira só sei como começa, nunca como acaba e quando acaba começa-se de novo, por isso dá para brincar a vida inteira sem enjoar. O inusitado do fim é que é o encanto. Podemos construir infinitas casinhas, mas não abandoná-las. Elas não sobrevivem ao abandono.
Para quem quiser aprender posso dar algumas "dicas".
Logo de início aguce os sentidos e desligue a razão. Uma boa brincadeira de casinha não pode ter um "pra quê". Isso já iria estragar o inusitado.
Coloque ao alcance da visão só o que for significativo. Cada coisa tem que contar uma historinha. Evite espaços que sua vista não alcance. 
Que sons e silêncios não se conflitem, se completem. 
Para uma casinha de verdade são necessários cheiros vivos: café, bolo no forno, terra molhada e tantos outros.
Muito importante também é o macio de uma coberta e de uma conversa.
O paladar é a soma dos outros quatro.
A respeito de porões e sótãos cabe um aviso.
Porões normalmente desconsideram a visão e o olfato. Quando há luz é artificial, quando há cheiro é morto. A escuridão libera nossos medos e nos imobiliza. No escuro nem o medo tem cara, pode até ser um medo alheio.
Sótãos são depósitos de apelos que impedem o fluir da brincadeira. Ia dizer depósito de inutilidades, mas não é isso não. Ser inútil é essencial para brincar.
Gosto muito de escadas, mas há que se ter cuidado e saber usá-las.
Certa vez desci uma que me levou até um porão onde fiquei aprisionada muito tempo. Deu um bom trabalho para achar a saída. Estava quase me acostumando com ele. Esse é maior perigo.
Subi-las exageradamente também é perigoso; perdemos as referências. Bom mesmo são escadas para subir pulando degraus, escorregar no corrimão ou então desfilar por ela como princesa.
Uma casinha bem arrumada recebe visitas, mas só de convidados muito especiais.
Quem no lugar de versinhos recita teorias não é bem vindo.
Boa brincadeira a todos.

sábado, 9 de maio de 2015

Bambús e Coqueiros

Bambús aprenderam a falar com o vento do rio.
Coqueiros com o do mar.
Bambús sussurram.
Coqueiros farfalham.
Bambús se recolhem.
Coqueiros se exibem.
Bambús reverenciam.
Coqueiros se erguem.
Bambús choram.
Coqueiros gargalham.
Tenho dias de bambú
e outros de coqueiro.