segunda-feira, 9 de março de 2015

Ação de despejo

Olhando para uma praça na Avenida Ana Costa - Santos - existe um edifício de arquitetura típica dos anos 50. Formas sinuosas, carnudas. Não foi desenhado com régua, foi feito pelo movimento das ondas que estão ali perto.
Em um de seus apartamentos, varanda aberta para o mar, meus sonhos e fantasias juvenis se fizeram locatários.
Nunca deixei de visitá-los nesses últimos 50 anos. Surpreendia-me ao ver que o tempo que se alimentou de minhas carnes não lhes marcava as faces.
Permaneciam jovens, inquietos, sorridentes.
Vai que um dia deparo-me com placa: "Vende-se".
Se as carnes firmes tinham sumido, a conta bancária até que estava vigorosa.
Ia comprar o apartamento. 
Dia marcado com a corretora. Ansiosa, chego antes do horário. Olho novamente aquelas curvas doces, pela última vez, pelo lado de fora.
Um aperto no peito me avisa do perigo. Vou entrar por uma porta e meus sonhos e fantasias sairiam por outra. Desalojados, despejados, não sobreviveriam ao peso de minha realidade. Magoados, jamais me dariam seu novo endereço.
Rapidamente me afasto do lugar marcado com a corretora que nunca pode entender aquela mudança.
Pacificada, continuo meu passeio com os olhos encharcados das curvas sinuosas e carnudas.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Setênios

Dez setênios e algumas coisinhas mais...
Algumas rugas a mais
Um pouco de flacidez a mais
Memórias...muitas mais!
Felicidade (que bom!) também mais
Sabedoria; procuro sempre mais
Serenidade, encontro-a cada vez mais
Dores; as possíveis, esconjuro-as mais e mais
Solidão; convivemos pacificamente. Nada demais!
Amor; agora sim o conheço bem demais
Liberdade; encharco-me dela até não poder mais
Setênios; quantos mais?


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Branca de alma preta

Da ascendência europeia herdei uma loirice e uns olhos claros, mas no pacote veio um manual de instruções. Como andar, como sentar, o que sentir, no que crer, e qualquer coisa fora disso, desprezar. Até meu destino após a morte já estava determinado: virar pó!
Em algum momento, não sei precisar quando, e também não foi nenhuma explosão de consciência, comecei a perceber que além de minhas “verdades” existiam outras e que afinal sempre estivera olhando o mundo através de uma janela fechada.
O primeiro movimento expontâneo foi abrir a janela e sentir outros cheiros, outras temperaturas, outros sons.
Descubro então o meu lado preto. Deixei de ser monocromática. Zumbi lutou para não se perder de si mesmo, eu lutaria para encontrar o meu.
Transformei meu manual de instruções numa revistinha ilustrada colorida.
Andar como quem dança.
Sentar para que o colo seja ninho.
Sentir que o tamborim me emociona mais do que o piano.
Crer no bem e no mal onde quer que ele se encontre e depois de morta virar areia da praia. Sou alérgica a pó!